"Encontrar os elementos universais suficientes, encontrar o ar e a água estimulantes, ser refrescado por um passeio de manhã cedo ou à tarde, estar entusiasmado com aparência das estrelas à noite, apreciar o ninho de um pássaro ou uma flor silvestre da primavera - essas são algumas das recompensas da vida simples."
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Vinho: Haedus Rosé, do pequeno produtor orgânico Ferry-Lacombe, em Provence. Prato: Robalo assado ao cítrico com arroz frito melangé, receita exclusiva do meu pai que envolve jogar todas
as sobras da geladeira na panela e adicionar o arroz. |
Aprecio cada vez mais vinhos simples. Mas o que é um vinho simples? Abaixo pequenos verbetes sobre a simplicidade de um vinho.
O vinho simples expressa tipicidade, ou seja, que reflete a sua origem, um senso de lugar, o somewhereness, nas palavras de Matt Kramer.
O vinho simples é aquele que não precisa de madeira em excesso para mascarar um ou outro defeito. Às vezes o defeito nem é defeito, e sim uma imperfeição, que na maioria das vezes se resume à uma qualidade de um clima, do terroir, de uma determinada cepa, da safra... Quem disse que uma cicatriz ou uma mancha na pele é necessariamente uma "imperfeição". Muito pelo contrário, elas podem carregar significados importantes ou histórias singulares.
O vinho simples não demanda a sua atenção durante todo o jantar. Ele te "escuta" mais do que fala, dá mais do que pede, e se revela aos poucos, como um caso bem contado ao longo de uma refeição entre amigos de longa data.
O vinho simples é mais autêntico, porque insiste em ser o que ele é, ou melhor, ele tem a coragem de ser o que ele é, de assumir humildemente o seu lugar frente à outros vinhos "maiores" do que ele.
A simplicidade, no caso dos vinhos, é uma virtude que vem do berço. Produtores simples produzem vinhos simples (o que não é nada simples de se fazer atualmente, quando a demanda pelo novo e "inusitado" é demasiada).
O vinho simples, tanto na forma como no conteúdo, pode ser uma verdadeira experiência estética. É a mesma diferença entre um livro bestseller e um clássico da literatura. Os bibliófilos que apreciam vinho com certeza compreenderam a analogia; já os enófilos que não admiram a boa leitura, fica aí a dica de um livro que é uma abertura para a verdade sobre o universo literário (e vinícola, eu digo!) - Ítalo Calvino: Por que ler os clássicos.